sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O medo óptico

Não é ficção cientifica, já aconteceu de facto: é possível manipular / editar memórias. Ainda não chegamos - que se tenha conhecimento - aos seres humanos, mas a tecnologia que se usa em ratos pode ser utilizada em pessoas. 
Como isto funciona? De forma muito simplificada, é possível localizar e activar uma memória (utilizando a óptica) e depois associar esta a uma sensação. Ou seja, é tecnicamente possível editar uma memória. Neste vídeo, os dois cientistas apontam possíveis "ramificações éticas" mas o tom da palestra é leve, e até divertido. 
Esta nova técnica poderá ter consequências benéficas, mas não é difícil suspeitar usos nefastos. Por exemplo, a técnica poderá associar uma violação ou agressão a uma sensação agradável. Podemos imaginar o argumento: se a "vitima" teve prazer no acto, este deixa de ser uma violação. Ou podemos criar um assassino, que comete actos em benefício de terceiros e depois a memória destas acções é, pura e simplesmente, apagada. 
Não sei se devemos ficar assustados com esta tecnologia, mas devemos ter consciência das suas consequências e, talvez seja boa ideia, criar mecanismos que garantam um usufruto cuidadoso das potencialidades desta tecnologia. 

sábado, 10 de agosto de 2013

A Minha Ideologia É Maior Que a Tua

Não sei o que pensar dos debates políticos que assisto. O que vejo nem sequer são propriamente debates, é um confronto entre monólogos, uma balbúrdia em formato binário. Lembro-me do poema de Muriel Rukeyser, "Ballad of Orange and Grape" (1973). As ideologias deveriam ser interditas a mentes que funcionam em formato binário. Não se produz democracia assim. 

Muriel Rukeyser (1973)
(Espero vir a traduzir para o português.)

Ballad of Orange and Grape

After you finish your work
after you do your day
after you've read your reading
after you've written your say —
you go down the street to the hot dog stand,
one block down and across the way.
On a blistering afternoon in East Harlem in the twentieth century.



Most of the windows are boarded up,
the rats run out of a sack —
sticking out of the crummy garage
one shiny long Cadillac;
at the glass door of the drug-addiction center,
a man who'd like to break your back.
But here's a brown woman with a little girl dressed in rose and pink, too.



Frankfurters, frankfurters sizzle on the steel
where the hot-dog-man leans —
nothing else on the counter
but the usual two machines,
the grape one, empty, and the orange one, empty,
I face him in between.
A black boy comes along, looks at the hot dogs, goes on walking.



I watch the man as he stands and pours
in the familiar shape
bright purple in the one marked ORANGE
orange in the one marked GRAPE,
the grape drink in the machine marked ORANGE
and orange drink in the GRAPE.
Just the one word large and clear, unmistakable, on each machine.



I ask him: How can we go on reading
and make sense out of what we read? —
How can they write and believe what they're writing,
the young ones across the street,
while you go on pouring grape into ORANGE
and orange into the one marked GRAPE —?
(How are we going to believe what we read and what we write and we hear and we say and we do?)



He looks at the two machines and he smiles
and he shrugs and smiles and pours again.
It could be violence and nonviolence
it could be white and black      women and men
it could be war and peace or any
binary system, love and hate, enemy, friend.
Yes and no, be and not-be, what we do and what we don't do.



On a corner in East Harlem
garbage, reading, a deep smile, rape,
forgetfulness, a hot street of murder,
misery, withered hope,
a man keeps pouring grape into ORANGE
and orange into the one marked GRAPE,
pouring orange into GRAPE and grape into ORANGE forever.




Homem Que É Homem (O Amoral versus o Imoral)

Lembro-me perfeitamente do local, estávamos sentados num muro numa margem do Mondego. O nome dela era N. Não era muito bonita mas o sorriso e as chalaças valiam o momento. 
- Vamos - disse eu. - Não podemos aqui fazer nada. 
- Podias fingir que me amas. Como sempre disseste que amaste a L, podias fazer o mesmo comigo.
- Eu nunca amei a L. 
Ouvi primeiro uma gargalhada, depois um sorrisinho insinuante. 
- Dizes tu. Eras maluco por ela. 
- O passado não move moinhos. Estou aqui contigo. És tu que eu quero.
- Diz-me uma coisa...
- Vamos! Agora!
- Espera, diz-me uma coisa. 
- Vamos, ou não?
- Podemos ir, mas ouve-me.
- Diz.
- Quero saber uma coisa. Já estiveste com uma prostituta?
- Não. 
Outra gargalhada. 
- A sério? 
- Sim. 
- Homem que é homem, pelo menos uma vez, tem de ir às putas. Se fosse homem, era isso que fazia.
- Não gosto de putas. 
- Não gostas? Porquê, só vais com amor?
O tom permanecia jocoso. 
- Não é isso. Mas tive uma ideia. 
- Qual? 
- Tenho dez euros. 
- E?
- Posso pagar. 
- Estás a brincar?
- Como assim? 
- Vai à merda.
Foram três meses de mimo para resolver a questão. 


Labirintos Irredutíveis

Disse adeus a um labirinto. O meu amigo advoga a total descrença, o labirinto era o predilecto. Não era um labirinto qualquer, tinha todos os segredos onde gosto de me aventurar. Digo ao meu amigo: muitos daqueles caminhos sem fim foram erigidos pelas minhas próprias palavras. Os seus segredos eram ecos das minhas fragilidades. O labirinto crescia em torno de promessas que nunca se iriam cumprir. Estive encerrado no labirinto longo tempo, mas bastou traduzir em dois segundos o pensamento em verdades para aquele edifício sem fins se desmonorar. A verdade é a melhor conselheira do coração. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A pretexto do falecido

Leio e lamento a morte de um autor. Sinto mágoa nas mensagens de fundo. Falamos no morto e nos "corredores do poder", reverenciamos o morto e aludimos o "inepto nacional", sublinhamos o imenso valor do finado, promovendo uma manifestação. O pudor tem limites, e depois da fronteira do impudor, alardeamos o rancor político. O país usa a política para cuspir rancor em cima de um corpo frio de um homem que vivia pelas e nas letras. Um homem que fugiu deste ódio, um homem que não quis reproduzir este ruído feito de lama. A sua morte serve para reaquecer o pântano. É mais um episódio triste deste país. 




Tenho a fome a sair pelas orelhas

Digo fome, poderia dizer sede. Sede de sorver o líquido saboroso da vida. O tédio paralisou-me os sentidos. No outro dia, visitei um mercado. Onde antes havia aromas, cores e sabores, sinto agora, apenas, o barulho e o caos daquele lugar invadir-me os poros. No passado, recordo-me, coleccionava fugas. Cada um destes escapes alimentavam o desejo de regressar ao quotidiano. 

Agora, não tenho mais fugas no cardápio. O quotidiano penetrou em todas as minhas fantasias, infiltrou-se nos universos paralelos, contaminou com mofo a vontade - o delírio da liberdade de poder ser algo sem os constrangimentos do meu regular fluxo consciente. 

Tenho a fome, ou a sede, a saírem-me pelas orelhas. Onde colocar esta sede? Para onde levar esta fome? Serei eu a fonte do vazio? Serei eu o criador destas ausências com as quais me cruzo? Haverá um mapa para fugir de mim próprio? 

O ser humano é um fazedor exímio de absurdos. Será o absurdo uma descoberta ou uma invenção? 

Confesso: não sei criar respostas para isto.