Digo fome, poderia dizer sede. Sede de sorver o líquido saboroso da vida. O tédio paralisou-me os sentidos. No outro dia, visitei um mercado. Onde antes havia aromas, cores e sabores, sinto agora, apenas, o barulho e o caos daquele lugar invadir-me os poros. No passado, recordo-me, coleccionava fugas. Cada um destes escapes alimentavam o desejo de regressar ao quotidiano.
Agora, não tenho mais fugas no cardápio. O quotidiano penetrou em todas as minhas fantasias, infiltrou-se nos universos paralelos, contaminou com mofo a vontade - o delírio da liberdade de poder ser algo sem os constrangimentos do meu regular fluxo consciente.
Tenho a fome, ou a sede, a saírem-me pelas orelhas. Onde colocar esta sede? Para onde levar esta fome? Serei eu a fonte do vazio? Serei eu o criador destas ausências com as quais me cruzo? Haverá um mapa para fugir de mim próprio?
O ser humano é um fazedor exímio de absurdos. Será o absurdo uma descoberta ou uma invenção?
Confesso: não sei criar respostas para isto.
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